la bête: uma análise semiótica

Uma análise semiótica da performance La Bête, de Wagner Schwartz
Por Patrícia Bergantin (dezembro de 2017)

Introdução

Neste ensaio faço uma análise do texto visual La Bête, performance do artista carioca Wagner Schwartz. Para tanto, sigo a premissa do linguista A. J. Greimas de que a estrutura elementar da significação se dá pela articulação de dois traços semânticos, os quais serão utilizados de conceitos estudados por Fernanda Eugénio, antropóloga, e pelo coreógrafo João Fiadeiro. São esses: a oposição entre Manuseamento e Manipulação no plano da expressão, e a oposição entre Reparar e Descartar no do conteúdo.

La Bête

Para analisarmos La Bête, precisamos saber de antemão que foi inspirada na obra Os Bichos (1959), de Lygia Clark (1920 – 1988). A artista fez parte, com uma série de artistas expoentes brasileiros, do Movimento Neoconcretista, de suma importância vanguardista, inclusive porque deslocava o público da posição passiva de espectador, para o papel ativo de ser o sujeito de sua própria experiência. A intenção era aproximar o espectador de um estado onde o mundo se molda e passa a ser constante transformação, desvinculando-o de um lugar de passividade dentro da instituição de arte. Sob esse aspecto, em ambos os trabalhos, é primordialmente a relação entre público e performer o dado mais valioso.

Aparentemente a performance é muito simples. Recebemos um papel que resume a série, que nada mais é que pequenas esculturas de formas geométricas de alumínio que se articulam por dobradiças. Percebemos que La Bête é uma atualização do trabalho da artista mineira, quando o performer, nu, inicialmente manejando uma réplica de plástico de uma delas, sugere para o público que as possibilidades de articulação se dêem em seu próprio corpo. Wagner então se torna objeto, o próprio Bicho a ser articulado, dobrado, reconfigurado. A princípio um simples jogo de interação, a performance tinha o intuito de criticar o sistema de comercialização da arte, que supervaloriza o objeto e menospreza o artista. Um Bicho de Lygia Clark pode atingir cerca 2 milhões de dólares, o que fez com que os museus sequer permitissem que o público tocasse no objeto, o que, paradoxalmente, contraria a intenção original de Lygia Clark, já que a obra não faz sentido se o espectador não a manuseia, pois se torna meramente um ornamento museológico. Só que, transbordando esse disparador, o que se dá a ver é um trabalho que exige muita corresponsabilidade, pois assume o trânsito performer-espectador logo de cara, além de realizar uma inversão extraordinariamente imprevisível; não é mais o artista o foco, mas o público. E é sobre essa inversão que pretendo, nessa análise, me aprofundar.

A categoria da dimensão visual, em especial considerando o conceito de imagem cênica, aponta para uma especificidade complexa no que diz respeito à semiótica das artes performáticas. No objeto aqui tratado, não há nenhuma informação sonora, portanto é primordialmente apreendida pelo sentido visão. Este sentido constrói e reconstrói tanto linearmente, organizando um entendimento pelo contínuo da apresentação, quanto numa deriva associativa, conectando as experiências e expectativas pessoais de cada espectador com aquilo que lhe é oferecido pelo performer. Devemos reconhecer que a semiótica visual da performance se faz ainda mais específica, pois ainda que uma pintura sofra uma série de alterações em seu entendimento tanto artístico quanto sócio-político, conforme o tempo e o contexto em que está inserida, ainda assim, permanece sendo o mesmo quadro físico. Já a arte performática parece sofrer ainda mais variações de interpretação, pois trata-se de um corpo vivo, e que provoca mudanças, não só historicamente, mas naquele específico presente, por uma dinâmica permanente de fluxos de desejo.

Plano de Expressão: Manipulação x Manuseamento

Partindo dessa conexão ativa e imprescindível do público com o performer, e considerando suas variáveis de relação tanto em interação quanto interpretação, articulo alguns conceitos do Modo Operativo AND, estruturado pela antropóloga Fernanda Eugénio, e de Composição em Tempo Real, em desenvolvimento pelo coreógrafo português João Fiadeiro, tendo como centro norteador as oposições entre Manipulação x Manuseamento e Descartar x Reparar.

A princípio sendo o ato de mover ou mexer com as mãos, o Manuseamento aqui é abordado com outra complexidade, sendo um ato que exige a subtração do “eu” e seu “querer”, para apropriar-se do todo em questão. Sob esta ação, é necessário, antes de tudo, aceitar e agir pela ética da suficiência. Este conceito, originalmente suscitado pelo antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, tem o intuito de evitar o desperdício e diminuir a pressuposição, o controle e a manipulação, substituindo-os por um posicionamento justo e pelo manuseamento atento. Já a Manipulação define-se por contraste ao Manuseamento, pois abdica da sua participação no cuidado e conservação do plano comum. Manipula-se quando excede-se, quando se deseja fazer algo antes de chegar o momento de o fazer, em resposta a uma vontade pessoal, uma urgência, ou, depois desse momento passar, em resposta a um apego. Entende-se por plano comum não a homogeneidade ou abrandamento das diferenças entre os participantes da investigação (sujeitos e coisas), mas o comum na diferença, na heterogeneidade.

“Segundo Peter Pelbart (2003) o comum é um fundo virtual, apresentando-se como uma vitalidade social pré-individual, pura heterogeneidade não totalizável. Nesse fundo comum e heterogêneo, composições e recomposições de singularidades têm lugar. Em vez de justificar e produzir falsos espectros do comum, como as figuras serializadas da mídia e do mundo globalizado, ele funciona como foco de resistência em relação à captura pelas diferentes lógicas homogeneizantes e totalizantes”.
KASTRUP e PASSOS, Fractal, 2013.

Na performance La Bête, Wagner se coloca enquanto matéria para que o público articule suas dobras, o reposicione, reconfigure. Essa ação, quando realizada pelo público através da ética da suficiência, e não a partir de uma ideia a priori ou desejo pessoal a ser suprido, permite que o presente se releve e o acontecimento assinale ao que veio. Justamente foi o que ocorreu na apresentação realizada no MAM, em setembro deste ano, dentro do evento “Panorama de Arte Brasileira”, quando uma criança, acompanhada de sua mãe, tocou a perna e a mão do performer, manuseando-a. A criança, assim como qualquer espectador que se conecte com o tempo presente e se permita interagir com a obra sem nenhuma imposição, mas pelo estar junto, está manuseando aquele corpo, em diálogo com aquela proposição. Em contraponto está a manipulação, cuja ação é motivada por um desejo individual a ser suprido. A personagem principal da manipulação é o “eu” , atenuado no manuseamento, reforçando ainda mais seu grau de subjetividade e de identidade. Isso é perfeitamente visível quando, na apresentação, alguém do público propõe uma posição “transgressora” para o performer ou impõe algum desvio do plano comum do acontecimento, daquilo que vem sido estabelecido ali em tempo real, por todos os que atuam ativamente e também pelos que só ali observam. Esses dois aspectos centrais ocorrem no campo do que é visto na performance e, já que estamos analisando a imagem, podemos compreender essa oposição pertencente ao plano de expressão.

“Quando a palavra ‘imagem’ aparece em estudos de semiótica aplicada a esse domínio da expressão, entende-se ‘imagem’ como aquilo que se pode ver.”
PIETROFORTE, 2011, p. 33.

Corpo Político

A potência de La Bête se dá no fato de que não se limita ao que é visto na performance, restringindo-se àqueles 60 minutos, mas se desdobra com complexidade, reverberando no âmbito social. Na macropolítica. Com a ascensão das mídias sociais, especialmente em um momento político de tamanha efervescência e polaridade, agimos sem pensar, mas com certezas absolutas e opiniões fechadas. Raramente paramos para reparar no que se passa. Vemos uma chamada de notícia online e, sem rigor, não só a consideramos verdade, quanto a julgamos. Avançamos em tom de ataque com julgamento apenas para constatar superficialmente o que lá está, chegando demasiadamente cedo com um saber, uma lei.

Se Manuseamento e Manipulação são baseados num acontecimento, e que, adicionando diferenças desnecessárias, perturbam a claridade do plano comum, o plano de conteúdo é necessariamente afetado, inclusive fora da sala performática. Aqui, avalio em especial o caso dos ataques midiáticos, perversamente com intenções políticas, que condenaram a performance como se incitasse a pedofilia, somente pelo fato de o mesmo estar nu, e uma criança ter tocado seu corpo. Para abordarmos esse assunto, temos que lembrar o quanto o corpo é uma realidade multifacetada e que cada sociedade tem seu corpo, assim como ela tem sua língua. E do mesmo modo que a língua, o corpo está submetido à gestão social tanto quanto ele a constitui. Por isso é importante avaliar como nossa sociedade colocou a condição do corpo como fruto de objeto sexual ou erotizado, que, além de estar a serviço da apreciação sensual, é também vinculado ao espírito de culpa. Assim, se o corpo é um símbolo da sociedade, toda ameaça sobre sua forma afeta simbolicamente o vínculo social. E La Bête foi mais um exemplo disso. Partindo dessas reflexões, segue minha hipótese sobre a relação semiótica no plano do conteúdo.

Plano do Conteúdo: Descartar x Reparar

Vejamos, se a Manipulação se setoriza no sujeito, ela visa um “fazer o bem” que cumpre demandas unilateralmente e de acordo com sua conveniência. Assim, toda a capacidade de produção de sentido é usada como julgamento com absoluto direito de legislar sobre o objeto, a fim de controlá-lo, classificá-lo, rotulá-lo. É justamente isso que tem ocorrido, principalmente com movimentos como o MBL, uma patrulha que, manipulando o medo e o ódio, visa, através da eficiência de comunicação virtual, ter influência na eleição de 2018.

“O problema do Brasil já não era a desigualdade nem a pobreza que voltou a crescer. Nem mesmo o desemprego. Nem a crescente violência no campo e nas periferias promovidas em grande parte pelas próprias forças de segurança do Estado a serviço de grupos no poder. Nem o desinvestimento na saúde e na educação. (…) Não. De repente, na semana passada, o problema do Brasil tornou-se, para milhões de brasileiros, a certeza de que o país é dominado por pedófilos e defensores do sexo com animais. Agora, são artistas que devem ser perseguidos, presos e até, como se viu em algumas manifestações nas redes sociais, mortos. E não só artistas, mas também quadros e peças de teatro. O problema do Brasil é que pedófilos querem corromper as crianças e transgêneros querem destruir as famílias.”
BRUM, El País, 2017.

Levando em conta que a performance não acontece se não houver participação do público e que, nesse sentido, o que se coloca em cheque é o viver junto, ao restringir a um viés somente, descarta-se o que há de potência naquele encontro, impondo-lhe uma coerência que fecha o acontecimento num único sentido possível, como vemos nas falas do atual prefeito de São Paulo “tudo tem limite”, “absolutamente imprópria”, “uma cena libidinosa” (DÓRIA, Folha de São Paulo, 2017). Como “salvar” é da ordem da Manipulação, no plano de conteúdo Manipular é Descartar, no sentido de manobrar o direcionamento somente a um determinado e restrito fim, cujo motor se encontra na ansiedade e na antecipação.

E vai ficando muito claro que agora é assim mesmo: pode-se fazer com o outro o que se quer. La Bête nos faz ver que somos nós que ajudamos a barbárie avançar.”
KATZ, Jornal O Estado de São Paulo, 2015.

Já se o manuseamento é um trabalho de proximidade, isto é, quanto mais próximo se está da concretude do que se passa, melhor se atende à direção do acontecimento, no plano do conteúdo, Manusear é Reparar, ou seja, agir dando suporte e assistência ao acontecimento, cuidando o suficiente para conservar o plano comum, seja na arte ou na vida. Reparar é um processo de investigação e não de julgamento, pois ao reparar, não se descrevem coisas, mas o que está entre elas, vendo o que se dá nas entrelinhas. É o senso crítico poroso e aberto ao diálogo que permite uma entrada em relação com o evento. Tendo um posicionamento cauteloso e com distanciamento, tratando de perceber onde e quando é que a paisagem global, ou do próprio acontecimento, necessita da nossa assistência.

Conclusão

Como Lygia Clark pretendia, estar em relação é assumir um papel ativo para ser o sujeito de sua própria experiência. E, com essa estímulo, Wagner Schwartz foi além, articulou uma ideia simples, de modo a complexificá-la, e mostrar ao público, talvez demasiadamente confortável no seu lugar de passividade, o que lhe é próprio: seus micropoderes. Antes escondidos, agora apontam explicitamente os possíveis mundos que podemos construir, seja o de suprir o próprio desejo acima de tudo, manipulando e descartando ou o de perceber que pisamos o mesmo chão, manuseando e reparando. O fato de a polêmica ter se dado principalmente pelo fato do performer estar nu nos faz reiterar o quanto os limites do corpo desenham na sua escala a ordem moral e significante do mundo. Pensar o corpo é se fazer olhar para fora e pensar o mundo que o entorna. Por isso, uma perturbação no que confere o corpo é uma perturbação introduzida na coerência do mundo. Falar do corpo é abordar, ao mesmo tempo, o que se passa fora dele. E é isso que a performance, com todos seus desdobramentos, efetivamente provocou.

Por fim, a partir de todas as polêmicas que habitam nosso contexto atualmente, orbitando valores que conferem a moralidade, a macropolítica e os micropoderes, temos pistas de caminhos possíveis, que revelam oposições que podem ser úteis ao menos para que nos percebamos e exercitemos um pouco de senso crítico aos nossos discursos de autoridade, de modo a não sermos levados pelo caminho mais fácil, sem reflexão, e, portanto, com feridas mais profundas. Enfim, propõem Eugénio e Fiadeiro: “Substituir a expectativa pela espera, a certeza pela confiança, a queixa pelo empenho, a acusação pela participação, a rigidez pelo rigor, o escape pela comparência, a competição pela cooperação, a eficiência pela suficiência, o necessário pelo preciso, o condicionamento pela condição, o poder pela força, o abuso pelo uso, a manipulação pelo manuseamento, o descartar pelo reparar.”

Referências Bibliográficas

AND mag – revista eletrônica do AND_LAB: https://www.and-lab.org/.

BRUM, Eliane. Gays e Crianças como Moeda Eleitoral. In: Revista El País, 2017.

EUGÉNIO, Fernanda; FIADEIRO, João. Dos modos de re-existência: Um outro mundo possível, a secalharidade. Lisboa-Portugal, 2012.

EUGÉNIO, Fernanda; FIADEIRO, João. O encontro é uma ferida. Conferência-performance Secalharidade de Fernanda Eugénio e João Fiadeiro. Lisboa: Culturgest, jun. 2012.

Jornal Folha de São Paulo. Em vídeo, João Doria condena mostra ‘Queermuseu’ e performance no MAM. Caderno ILUSTRADA. 2017. Acesso pelo link: http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2017/09/1923259-em-video-joao-doria-condena-mostra-queermuseu-e-performance-no-mam.shtml

KASTRUP, Virgínia; PASSOS, Eduardo. Cartografar é traçar um plano comum. In: Fractal, Rev. Psicol. vol.25 n.2. Rio de Janeiro Mai/Ago. 2013.

KATZ, Helena. ‘La Bête’ e a barbárie destes tempos sombrios veículo. Jornal O Estado de São Paulo, 2015.

PIETROFORTE, Antônio Vicente. Análise do texto visual: a construção da imagem. 3a Ed. São Paulo: Contexto, 2011.

SANT’ANNA, Denise Bernuzzi de. Políticas do Corpo. São Paulo: Estação Liberdade, 2005.

SETENTA, J. S. O fazer-dizer do corpo: dança e performatividade. Salvador: EDUFBA, 2008.

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